- Um copo de água, por favor.
- Por favor senhor, saia.
- Um copo de água, por favor. Só isso.
- Por favor homem, perturba-me os clientes..
- Mas só lhe estou a pedir um copo de água...
- O que quer sei eu. Digira-se a porta e não incomode as pessoas.
- Mas já está um tempo que não se pode. Não quero incomodar ninguém, só lhe peço um copo de água.
- Oh homem não me chateie mais a cabeça! A clientela já está toda a olhar. Não vê que os está a importunar?! Vá, saia depressa que, ao contrario de si, eu tenho trabalho a fazer.
O pobre homem saiu do café sem folgo. As lágrimas rasavam lhe os olhos e caiam uma por uma enquanto, numa marcha muito lenta e pesada, limpava o suor da testa, abanava a camisola branca de algodão e dava mais uma dobra nas calças de ganga gasta. Os seus pés coziam nos sapatos, que no Inverno serviam de consolo e facilitavam o andar, mas que sobre aquela escaldante tarde de verão o faziam desesperar.
Dentro do café uma menina, sentada ao pé da mãe, após assistir a cena fita intensamente a partida do sem abrigo, lixo desgraçado como a mãe o chamara, através da límpida montra.
- Onde vais Raquel?
- Vou ali ver rebuçados e já venho.
Chega-se ao balcão e com um ar sereno vira-se para o empregado:
- Quero um copo de água fresquinha, bem cheio, para matar a sede, por favor.
O homem sorri a Raquel e passa-lhe o copo juntamente com um chupa-chupa.
A menina pega no copo e esquecendo-se do chupa-chupa saí a correr do café em direcção a criatura abandonada por Deus. Aproxima-se e diz:
- Não chores! É para ti. Bebe!
O homem espantado pega no copo e de um golo sorve toda a agradecida bebida.
- Obrigado pequena, mas é melhor voltares. O dono do café e a tua mãe não vão gostar muito do que fizeste.
-Não faz mal. Toda a gente tem direito a um copo de água.
7 de novembro de 2010
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